Quando desisti do último projeto, fiz a mim mesmo uma promessa que já tinha feito outras vezes: quero me focar no meu trabalho e continuar melhorando cada dia mais."
A diferença é que, dessa vez, algumas coisas pequenas nenhuma delas planejada como estratégia de crescimento acabaram mudando de verdade a forma como eu penso sobre criar conteúdo. Não foi um curso. Não foi um mentor. Foram três detalhes simples, que se acumularam sem que eu percebesse o tamanho do efeito.
A leitura que abriu outra perspectiva
Em junho, tive trinta dias de férias. Foi nesse período que li o livro do escritor moçambicano Ngulane Bacacossa, "Resistir ao Abado".
O livro fala sobre história moçambicana, filosofia e filósofos, geopolítica, como funciona o sistema de poder, e o que significam as guerras do ponto de vista de um governo. Para quem nunca leu nada parecido e vive em Moçambique, é o tipo de leitura que deixa a mente mais aberta depois da última página.
Essa mudança de mentalidade na criação de conteúdo começou, na verdade, longe da criação de conteúdo em si. Começou entendendo melhor o lugar onde eu vivo, o sistema em que estou inserido, e as forças que moldam decisões muito maiores do que as minhas. Isso muda a forma como você enxerga os próprios problemas: eles deixam de parecer o centro do universo, e passam a ser vistos dentro de um contexto muito mais amplo.
Ler sobre geopolítica e sistemas de poder ensina, sem intenção direta, uma lição que se aplica a qualquer área da vida: quase nada acontece isoladamente. Os projetos que abandonei, as comparações que fiz, os medos que tive tudo isso também fazia parte de um sistema maior de crenças que eu nunca tinha parado para questionar.
A palavra que parecia falar diretamente comigo
A segunda coisa que abriu minha mente foi começar a participar de cultos regularmente. A cada culto, o pastor trazia uma palavra que parecia ter sido escrita pensando exatamente na minha situação — como se ele estivesse falando sobre mim, mesmo sem saber quem eu era.
Isso me levou a fazer algo que eu não fazia com frequência: ler a Bíblia. Não foi uma leitura extensa, nem constante. Mas mesmo pouca, teve um efeito que eu não esperava. Eu era uma pessoa muito ansiosa com o futuro — vivia calculando cenários, temendo resultados, adiando decisões por medo do que poderia dar errado. Aos poucos, comecei a ficar mais calmo.
Existe uma passagem que resume bem essa mudança: "Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e súplica, com ação de graças" (Filipenses 4:6). Não é uma promessa de que os problemas desaparecem. É um convite para parar de carregar sozinho o peso de tentar controlar tudo o que ainda não aconteceu.
E há outra, que se tornou quase uma bússola para decisões difíceis: "Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento" (Provérbios 3:5). Foi essa confiança, aos poucos construída, que me deu coragem para olhar para trás e decidir voltar ao que eu tinha deixado para trás — em vez de continuar fugindo, começando outro projeto do zero, repetindo o mesmo ciclo de sempre.
As vozes que fortalecem a caminhada
A terceira coisa que me fortalece são conteúdos de criadores que acompanho no YouTube — Canal do Ninja, Professor Jiang Xueqin, Pablo Marçal, Flávio Augusto, entre vários outros nomes que nem sempre lembro de cabeça, mas que também contribuíram ao longo do tempo.
Cada um, à sua maneira, reforça pedaços diferentes da mesma mensagem: disciplina, visão de longo prazo, coragem para enfrentar o desconforto. Nenhum desses conteúdos, sozinho, teria mudado minha forma de pensar. Mas combinados com a leitura e com a fé que fui reconstruindo, formaram uma base mais sólida do que qualquer um deles isoladamente.
Recomeçar, não começar do zero
Existe uma diferença importante entre essas duas ideias, e foi exatamente isso que essas três coisas juntas me ensinaram.
Começar do zero significa apagar o que já foi construído e fingir que nada daquilo aconteceu. Recomeçar é diferente: é voltar ao que foi deixado para trás, levando junto tudo o que se aprendeu no caminho — inclusive os erros, as desistências e as comparações que antes pareciam derrotas.
Já falei sobre esse padrão de tentar fugir dos próprios projetos em A Verdadeira Razão Pela Qual Você Sempre Desiste no Meio do Caminho. A diferença, dessa vez, é que voltar não veio de mais força de vontade. Veio de uma mudança mais profunda na forma como eu interpretava meus próprios obstáculos.
O propósito não é só meu
Talvez a parte mais importante dessa mudança de mentalidade não seja sobre criação de conteúdo, produtividade ou disciplina. É sobre a quem, no fim, esse esforço todo pertence.
Hoje entendo que Deus está comigo nessa jornada — não para cumprir apenas os meus objetivos pessoais, mas para cumprir um propósito que é dele, não meu. Isso muda a forma como encaro as limitações, dificuldades, barreiras e obstáculos que ainda vão aparecer pela frente. Eles deixam de ser provas de que algo está errado comigo, e passam a ser parte natural de um caminho que nunca prometi que seria fácil.
Isso também torna mais leve a comparação que discuti em Pare de Comparar o Sucesso do Outro com o Seu: quando o propósito não é só seu, comparar resultados com os de outra pessoa perde boa parte do peso que costumava ter.
Nenhuma dessas três coisas — a leitura, a fé, os conteúdos que acompanho — parecia, na hora, capaz de mudar alguma coisa grande. Eram apenas pequenos detalhes espalhados ao longo de alguns meses.
Só que foi exatamente a soma desses pequenos detalhes que me fez escolher enfrentar meus problemas, em vez de fugir deles mais uma vez.
Amém. Que a glória do Senhor esteja com quem está lendo isso, e que os pequenos detalhes da sua própria jornada também comecem a se somar.


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